9 de April de 2020

Não, não teremos uma crise de escassez de alimentos! – Protagonismo do alimento nos momentos de crise.

Nem teremos qualquer crise de escassez.

A verdade é que estamos a viver tempos muito especiais, diferentes de tudo, e que ficarão para a história.

O fenômeno COVID-19 será transitório na sua duração, mas permanente nos seus efeitos e nas suas consequências.

Depois disto haverá um mundo AC e PC (antes e pós Covid). A normalidade regressará mas não será a mesma, será outra: “um novo normal”.

Por isso vou tentar expor o meu argumento da não escassez em dois horizontes temporais: o agora, durante a crise; e o após, quando o mundo regressar ao “normal” (o novo normal).

Agora estamos “todos em casa” – todos nós, os priveligiados que podemos ficar em casa, porque temos casa, temos rendimentos ou empregos formais que isso permitem. Nos países ditos desenvolvidos estes “todos” somos a maioria da população, mas noutras partes do mundo as coisas serão bem diferentes. Por isso, no mundo dos países ricos e desenvolvidos, o cenário é de “lock-down”. A vida social entrou no congelador e aí permanecerá mais algumas semanas.

As economias maduras e desenvolvidas levaram décadas para encontrar o equilibrio dinâmico entre a procura/demanda e a oferta. Todo esse processo é muito lento e permite a adaptação do tecido produtivo às variações da procura/demanda. Mas com o mundo no congelador a procura/demanda por alguns (muitos) serviços eclipsou-se de um dia para o outro. Simplesmente desapareceu, e não deu tempo para que o tecido produtivo se adaptasse. Mas os fatores de produção existem, estão preparados, simplesmente mas não há procura. E essa é a regra geral, para a qual há, como sempre as exceções. Neste caso, entre as exceções estão por exemplo os bens de saúde (proteção individual contra o COVID-19, testes clínicos, etc) cuja procura disparou para níveis impossíveis de satisfazer no curto prazo; e os bens alimentares, cuja procura se manteve essencialmente inalterada, apenas com ajustes no comportamento do consumidor, que passou a consumir alimentos apenas em casa e a comprar com muito menor frequência, evitando os bens mais perecíveis e não essenciais.

Então, do lado da procura/demanda de bens alimentares: enquanto estamos em casa tendemos a consumir um pouco menos, aumentando a proporção de bens alimentares menos perecíveis (mais cereais, massas e conservas, e menos frescos perecíveis não essenciais), reduzindo assim também o desperdicio. Se no AC os supermercados queriam supreender o consumidor e proporcionar experiencias de consumo memoráveis, hoje a única experiência memorável que temos é ficar em casa com medo de ir à rua, e os supermercados já só querem que as pessoas se sintam seguras e confiem que não vai faltar produto.

Do lado da oferta os meios de produção alimentares são hoje essencialmente os mesmos que eram no AC, à exceção da relativa excassez de mão de obra em alguns subsetores e algumas geografias que eu tenderei a desvalorizar porque a produção de alimentos é hoje muito mecanizada e mesmo a que ainda é muito manual permite baixas concentrações de pessoas (o problema está na impossibilidade de migrações sazonais internacionais de trabalhadores agrícolas indiferenciados).

A produção de alimentos é hoje uma indústria à escala global. Os agentes econômicos de cada geografia foram-se especializando na produção de bens para os quais detinham vantagens competitivas. No caso do Brasil, tirando partido da extensão e da fertilidade dos seus solos, tornou-se fornecedor global de soja, carne, café, entre outros. No caso Português, com um deficit estrutural da balança comercial de alimentos (importamos mais bens alimentares do que exportamos) resultante da relativamente baixa fertilidade dos seus solos, especializou-se na produção de bens alimentares que exportamos como o vinho, o azeite, o tomate ou a framboesa, porque não seria competitivo na produção de trigo ou de soja, por exemplo, que temos que importar.

Importa enfatizar a natureza dinâmica e gradual do equilíbrio entre a oferta e a procura. Durante décadas as cadeias de fornecimento foram-se tornando mais ágeis, mais eficientes e mais globais. No mundo AC as cadeias de supermercados europeias trabalhavam com estoque zero, faziam a previsão das vendas diárias com base em modelos matemáticos construídos em cima de décadas de comportamento “normal” de consumidor. E funcionava muito bem, muito eficiente, reduzindo ao máximo os custos da cadeia de valor. Era uma cadeia de fornecimento muito eficiente, e por isso não  acumulava estoques. Quando o consumidor se assustou e correu para o supermercado para comprar bens de primeira necessidade, em quantidades maiores, eles não existiam naquelas quantidades ao longo da cadeia de fornecimento. Foi um desajuste pontual entre a oferta e a procura. Mas assustou quem não compreende o funcionamento da “máquina”. E por isso, alguns mais populistas voltaram a falar de autonomia e segurança alimentar nacional, decretando a restrição de exportação de bens alimentares essenciais (Cereais: arroz o mais consumido no mundo e o trigo o mais consumido no ocidente).

Nada que nos deva assustar, a oferta mundial de alimentos está dimensionada para níveis de procura superiores aos atuais e os meios de produção e de distribuição estão essencialmente intactos.

Em todo o mundo os agentes econômicos se especializaram e tentam tirar partido da globalização. Os negócios e as famílias em Portugal, no Brasil, na Rússia, ou no Vietnam, que dependem da exportação dos seus bens alimentares continuarão a fornecer o mundo enquanto este quiser consumir os seus produtos.

Quando o mundo passar a consumir diferente a oferta irá se ajustar, se lhe dermos tempo para isso.

À medida que o tempo vai passando e a “poeira vai acentando”, começamos a compreender um pouco melhor o que verdadeiramente se passa. No curto prazo podemos ter desajustes, mas o mecanismo preço estará à altura de lidar com isso, informando o consumidor e o produtor quanto ao que deve fazer.

A nossa preocupação não deve estar do lado da oferta mas sim do lado da procura.

O mundo PC será um mundo com mais desemprego, com menor rendimento e com menor poder aquisitivo para a grande maioria das pessoas e das famílias.

Depois do regresso ao normal de forma gradual, passaremos do congelador para o frigorífico.

O consumo irá recuperar mas será diferente ao AC e haverá ajustes no perfil de consumo das familias, ajuste aos quais a produção terá que se ajustar.

Andrá tutto bene!

 

 

Filipe Sampaio Rodrigues – Porto, 09 de abril de 2020.

Filipe Sampaio Rodrigues é licenciado pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto, é Doutor em Gestão pela Universidade de Lancaster, UK, consultor em marketing dos alimentos, e empresário agrícola em Portugal.

 

 

Imagem: Pixabay