3 de julho de 2020

NÓS COMEREMOS MELHOR AMANHÃ!” – PARTE II

“Nós comeremos melhor amanhã” (“Nous mangerons mieux demain!”), um texto entre crônica, relato e poesia, escrito por Régis Marcon, Fanny Agostini e Christophe Lavelle, publicado no blog francês, A tabula, que dividimos em duas partes, e fizemos questão de traduzir para os leitores lusófonos se deleitarem.

Parte 2:

 

“A Gastronomia como cultura

O objetivo comum dos cozinheiros, garçons e de todos as profissões alimentares é alimentar nossos irmãos; eles fazem isso com paixão, conscientes de sua responsabilidade de dar prazer ao mesmo tempo cuidando da saúde. É uma culinária positiva, que é se maravilhar com os produtos da natureza e compartilhá-los, seja em um restaurante com estrela Michelin ou em um bistrô, em uma cantina ou em hospitais. Porque além dos aspectos hedônicos essenciais que nos fazem saborear enquanto compartilhamos uma boa refeição, nossa dieta diária tem uma influência decisiva em nossa saúde, não para curar (a comida não é remédio), mas para prevenir!

Um bom vento nos inspira, cada vez mais artesãos, chefs estão abordando suas profissões com mais bondade, respeito, preocupação com alimentos sustentáveis, valorizando os produtos de nossas regiões e os homens e mulheres que produzem-os, com uma abordagem sincera, que deseja dar mais significado às nossas vidas, às nossas profissões.

Nesta luta, não estamos sozinhos, principalmente quando sabemos que 84% dos franceses dizem estar preocupados com sua alimentação. O fato de que a refeição francesa faça parte do patrimônio imaterial da UNESCO confirma que nossos cidadãos são, em grande parte, muito apegados ao conceito do bom e do “Comer bem”, a esse conceito de compartilhamento, de discussões à mesa, uma maneira de parar o tempo, de fortalecer os laços sociais.

 

Educar, incentivar a próxima geração

A educação está no centro da mudança, através da contribuição do conhecimento,do know-how e das habilidades para a vida. Nossos filhos devem ser treinados o mais rápido possível ao pensamento crítico, que falta hoje a muitos de nossos cidadãos, o nível de debates públicos e discussões nas redes sociais são diariamente a triste prova. Porque nem todas as opiniões são criadas iguais, sejam elas alimentadas pelo conhecimento ou pela ignorância, por uma reflexão ou um clichê.

A alimentação pode ser novamente uma ótima alavanca pedagógica. Assim como aprendem a contar, ler e escrever, as crianças precisam aprender a conhecer a natureza, os produtos, as estações do ano, a tocar e saborear, enfim, a entender melhor seu ambiente, porque é mais fácil apreciar o que conhecemos. Cientistas, cozinheiros, professores podem dar cartões para acompanhar as refeições da cantina, informar os pais, ensinar as crianças a comer e, de maneira mais geral, tentar responder às numerosas perguntas que jovens e idosos estão fazendo sobre suas alimentações (o que foi recentemente criado no “Musée de l’Homme”  com a plataforma on-line “L’alimentation en questions”). É claro que as famílias precisam aderir ao “jogo”, incentivá-las a ficar à mesa, diversificar os menus, conversar sobre a nossa história e a riqueza de nossa herança gastronômica, proteger contra junk food. Mais tarde, essas crianças serão os melhores embaixadores da natureza, dos produtos saudáveis ​​e do prazer compartilhado à mesa; talvez adolescentes e, em seguida, adultos, eles ponham comida antes de outras preocupações materiais, revertendo assim a curva de obesidade em crianças e adultos.

Porque se a parcela de alimentos diminui regularmente nos orçamentos das famílias, o conteúdo calórico das compras continua aumentando, com uma diferença qualitativa ainda mais acentuada, pois os salários são baixos, mesmo que essas diferenças tendem a desaparecer com o nível de educação que comprova, com igual poder aquisitivo, a importância da alavanca pedagógica e cultural para avançar em direção à uma boa alimentação!

Do lado profissional, os jovens atualmente em treinamento serão os principais atores dessa mudança, portanto precisam ser treinados da melhor maneira possível, nesse contexto paradoxal em que a culinária nunca foi tão destacada pela mídia, mas onde o setor ainda está lutando para recrutar, com mais de 100.000 empregos não preenchidos. Quando os jovens se revoltam para salvar o planeta, procurando um significado, mostrando consciência social e ambiental. Devemos ouvir esses pedidos de ajuda e garantir que nosso treinamento leve mais em consideração o impacto de nossa profissão sobre a saúde e sobre o desenvolvimento sustentável. A aprendizagem de gestos técnicos básicos deve ser acompanhada de um aumento de cursos teóricos e especialmente práticos sobre nutrição, e sobre o conhecimento do mundo agrícola. É assim que nossos futuros cozinheiros se tornarão os melhores embaixadores da culinária sustentável e responsável, dando assim mais significado à sua profissão e ao desejo de nossos jovens de se comprometerem com eles.

Os gestos e todas as expressões de solidariedade que pudemos observar durante esse longo confinamento dão esperança de que seremos capazes, com a boa vontade de todos, de melhorar nossa alimentação e preservar nosso bem coletivo mais caro: a terra. As cartas estão em nossas mãos; jogando bem, podemos evitar o retorno … ao anormal!

 

 

Fonte:  https://www.atabula.com/2020/06/15/nous-mangerons-mieux-demain-par-regis-marcon-fanny-agostini-et-christophe-lavelle/?mc_cid=046dca4ac7&mc_eid=afae800fe2