6 de julho de 2021

Comida e religiosidade

Muitas vezes em nosso cotidiano não nos atentamos a história de determinado alimento, mas você já se perguntou “por que e como consumimos determinados insumos? Como ele chegou até você?”.

É explícito que a cultura gastronômica brasileira passou por várias influências ao longo da história, e uma das mais marcantes foi a africana, já que com os negros escravizados, em sua maioria eram Sudanenses e Bantos, levados para o Brasil, levaram com eles a cultura, as práticas alimentares e a religião de seus países.

A religião era um fator muito importante para os africanos, e ao serem levados para o Brasil, sentiram a necessidade de manter sua religiosidade viva. Parte dessa cultura religiosa envolve a oferta de alimentos aos orixás.

Com alguns alimentos levados para o Brasil, que se tornaram alimentos ‘comuns’ para os brasileiros atualmente, surgiram por meio dessa miscigenação forçada de cultura e religião.

Para os africanos era muito comum o uso de pimenta para os alimentos ofertados para o orixá Exu, e no novo território eles se depararam com uma grande variedade de pimentas; um exemplo oposto disso é o inhame, que é ofertado para o orixá Ogum, e que ao contrário das pimentas, houve necessidade de levá-lo da África para o Brasil para que se desse continuidade ao culto desse orixá.

Podemos chamar essas ofertas de alimentos votivos, pois são feitas como meio de agradecimento e de fortalecimento, além de serem feitas para que fosse possível fazer um pedido ao orixá.

 

“Dessa forma, pode-se entender o motivo pelo qual a tradição de alimentar essas entidades é tão presente nos cultos de origem africana. Esses seres precisam alimentar-se para terem axé, para realizar os pedidos de seu protegido, seu “filho”. Embora seja comum aos leigos que se ofereça – arriar – comida aos santos apenas para que estes possam retribuir com alguma graça ao oferecedor, em inúmeras ocasiões o alimento é arriado para agradecer, pedir perdão ou, de forma mais geral, “para fortalecê-los, simbolicamente, de atenção, respeito, reconhecimento, amor e confiança” (RIBEIRO, 2009, p. 4)

Alguns desses alimentos entraram em nosso território com a intensificação do tráfico negreiro, visando uma melhor adaptação dos africanos escravizados, fazendo com que alimentos como feijão, mandioca, milho, inhame, erva-doce, gengibre e muitos outros se tornassem “comuns”.

Dentre os alimentos ofertados pode-se citar dois tipos: os animais que são sacrificados e as “comidas secas”, que não necessitam de sacrifício; um dos animais de grande importância nas cerimonias religiosas é a galinha d’angola, que como o próprio nome sugere, é proveniente de terras africanas.

Dentro de um terreiro, os alimentos a serem ofertados ficavam sob responsabilidade da iabassê – mãe da cozinha, que é a responsável por preparar, sem erros, a comida que será oferecida para o orixá.

Essa miscigenação forçada acabou trazendo ingredientes novos, uma mescla de culturas, novos estilos musicais, além de termos a primeira religião propriamente brasileira (a umbanda, junção entre candomblé e catolicismo).

Mesmo que façam parte de nosso cotidiano, cada ingrediente que está em nossa mesa possui uma história e uma trajetória para estar ali, e é importante que entendamos as influências que formaram o Brasil e gastronomia que temos hoje.

 

Texto: Emilly Patrícia Godoy Ferreira

Curadoria e edição de texto: Paula de Oliveira Feliciano

Edição/popularização científica: Juliana T. Grazini dos Santos

 

 

Referência

RIBEIRO, Pedro Henrique Mendes. Comida e Religiosidade: Dos cultos afro-brasileiros para a história da alimentação brasileira. Departamento de Letras – UFRN. Disponível em: <https://cchla.ufrn.br/humanidades2009/Anais/GT23/23.1.pdf> Acesso em: 15 mar. 2021.

 

Para saber mais

Comidas para os Orixás (receitas): https://ocandomble.com/2008/08/04/comidas-para-os-orixas/

 

Emilly Patrícia Godoy Ferreira é aluna do curso de graduação em Tecnologia em Gastronomia do Centro Universitário Senac Campos do Jordão e escreveu esse texto como uma atividade da matéria Estudos Contemporâneos de Gastronomia. A publicação integra proposta de aprendizado sobre popularização e difusão científica das ciências dos alimentos e alimentação da Fundação Verakis com o Centro Universitário Senac Campos do Jordão.

Paula de Oliveira Feliciano é mestra em Culturas e Identidades Brasileiras pelo IEB/USP, graduada em Gastronomia e pós-graduada em Docência para o Ensino Superior. Atua como chefe de Projetos Verakis Brasil e como professora nos cursos de graduação e pós-graduação em Gastronomia no Centro Universitário Senac Campos do Jordão. Em 2018, passou pelo programa de estágio da Fundació Alícia/Espanha, centro de pesquisa em cozinha, sustentabilidade e impacto social. E, em 2019, pelo Observatori d’Alimentació da Universitat de Barcelona (ODELA-UB), acompanhando atividades na linha de pesquisa turismo gastronômico.

Juliana T. Grazini dos Santos – Doutora em Informação e Comunicação/Jornalismo Científico/Popularização Científica pela Universidade de Paris 7(Denis -Diderot), vive há mais de 20 anos na França, onde pesquisa e desenvolve trabalhos de jornalismo científico, popularização da ciência e comunicação nas áreas de alimentos, alimentação e nutrição; presidente da Verakis (França), conceptora e diretora do curso de Especialização em Marketing de Alimentos Verakis (Europa); membro do grupo de estudos de informação ao consumidor do Fundo Francês para Alimentação e Saúde (FFAS) e curadora de cursos na área de alimentos e alimentação na Europa, América Latina e Brasil.

 

Imagem: ArtsyBee