17 de fevereiro de 2021

Capital e morte

Vários estudos têm abordado a incidência da redução de recursos em saúde pública e como isso afetou a pandemia de Covid-19. O estudo liderado por BARRERA-ALGARÍN, publicado na revista espanhola de saúde pública, relaciona as políticas neoliberais em trinta países europeus com a mortalidade por Covid-19.

O estudo analisa as seguintes variáveis: gasto público per capita anual com saúde pública, médicos por 1.000 habitantes, leitos por 1.000 pessoas, óbitos por milhão de habitantes por Covid-19, e desigualdade de renda pelo coeficiente GINI.

O impacto em mortes é desigual. Cinco países deram valores acima de 300 mortes por milhão (Reino Unido, França, Itália, Espanha e Bélgica),  países da Europa Ocidental e Meridional. Um segundo grupo de países apresentou valores de 100 a 300 mortes por milhão de habitantes (Suíça, Suécia e Irlanda), o restante (17 países) apresentou valores abaixo de 100 mortes por milhão de habitantes.

Sobre relação entre o número de óbitos por Covid-19, e o número total de exames realizados na população, não há correlação estatística, embora os países com maior mortalidade não tenham encontrado valores elevados para realização dos mesmos. Percebe-se que existe uma certa semelhança nos países que tiveram menos óbitos e que realizaram mais exames (Europa Central e Norte da Europa).

A primeira correlação significativa que podemos destacar é entre o gasto público e o número de óbitos por Covid-19 ( x2 = -0,49; p <0,001), o que indica que quanto menor o investimento nos gastos públicos com saúde per capita, maior o número de óbitos por Covid-19,  por milhão de habitantes, principalmente Espanha e Itália.

Outro aspecto em que se observa correlação significativa é entre os gastos com saúde pública e a cobertura de leitos por 1000 habitantes (x2 = -0,483; p <0,001); quanto menor a alocação para saúde pública, menor é o número de camas. No mesmo sentido encontramos uma correlação significativa entre a cobertura de leitos hospitalares e os óbitos por Covid-19 (x2 = -0,369; p <0,005), observada de forma mais clara na Europa Ocidental e no Sul da Europa.

Nos países como Eslovênia, Islândia, República Tcheca, Eslováquia, Dinamarca, Finlândia, Noruega, Polônia ,com coeficientes GINI entre 0,243 e 0,275, os valores mais baixos obtidos, apresentaram menor número de mortes por Covid-19 (entre 3 e 60 mortes por milhões) em comparação com a Espanha, Itália, Reino Unido ou França, com coeficientes GIINI entre 0,292 e 0,357, e uma taxa de mortalidade de 350 a 495 por milhão. Como não poderia deixar de ser, existe correlação significativa entre o coeficiente GINI e os gastos com saúde pública (x2 = -0,489; p <0,489)

Uma relação de influência foi verificada, mas não uma correlação negativa entre o número de médicos por 1000 habitantes e aqueles que morreram de Covid-19.

 

Alberto Berga Monge – Madrid, 17 de fevereiro de 2021.

O Prof. Dr. Alberto Berga Monge, é médico veterinário espanhol, professor e colaborador Verakis, professor colaborador da Universidade de Zaragoza, auditor da União Europeia e diretor da AMB Consulting, e escreve para o blog da Verakis.

 

Leia o artigo

https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S2213-2600%2820%2930560-9

 

Imagem: rottonara