16 de outubro de 2020

O sabor da transformação social

A pandemia de Covid-19 trouxe à tona a situação de insegurança alimentar no Brasil e que tem impacto direto no acesso a uma alimentação saudável. Há algumas décadas, Josué de Castro já alertava que não seria possível alcançar o desenvolvimento econômico com um povo faminto.

Apesar do cenário ser complexo, e composto por um conjunto de variáveis, a fome moderada ou grave é o estágio que se amplia nesse momento pois as pessoas passam a experimentar, de modo contínuo ou intermitente, a privação de alimentos. A última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) publicada em 2020 evidenciou que a insegurança alimentar grave atingiu 10, 3 milhões de pessoas, num total de 3,1 milhões de domicílios.

Neste 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, talvez tenhamos pouco a comemorar em relação a esses números absolutos da fome no Brasil. Por outro lado, diversas iniciativas nacionais têm se formado para ampliar vozes e reflexões sobre o assunto. Também contribuem para evidenciar o papel estratégico que a Gastronomia pode ter tanto na conexão entre comida e planeta na promoção de uma alimentação saudável, justa e sustentável como na transformação social:

Gente é para brilhar, não para morrer de Fome: mais de 100 organizações da sociedade civil se unem para oferecer conferências online e marmitaço nacional.

Projeto Cozinha de Combate/Por nossa Conta: 4 restaurantes se juntam para dar suporte alimentar a pessoas em situação de vulnerabilidade social. Já distribuíram mais de 12 mil marmitas na cidade de São Paulo.

Comida Invisível: projeto com foco em educação e conscientização, tem a missão de reduzir o desperdício e a má distribuição de alimentos. Desenvolveu plataforma que aproxima quem tem alimentos bons e próprios para doar com quem precisa deles, sejam restaurantes, supermercados, hotéis, bufês, bares, sociedade civil ou Terceiro Setor.

Movimento Água no Feijão: rede de cozinheiros que articula serviços de alimentação e realiza distribuição de marmitas a comunidades que estão passando fome.

Quebrada Alimentada: distribuição de marmitas e cestas básicas sustentáveis realizada pelo restaurante Mocotó na tentativa de amenizar os efeitos sociais e econômicos da pandemia de covid-19.

Como nos faz refletir os resultados da POF (Pesquisa de Orçamento Familiar – Brasil), a segurança alimentar existirá na “família/domicílio [que] tem acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais.

A importância dessa perspectiva também se justifica de acordo com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ODS-ONU). Destacam-se neles que a fome zero e agricultura sustentável devem ser um dos dezessete compromissos globais para o desenvolvimento sustentável das nações.

A gastronomia pode então renovar sua perspectiva como estudo e atuação quando enfrentar um dilema intrínseco ao seu campo de saber, no Brasil:  a comida como um direto de todos e não um privilégio de poucos. Comer bem pode transformar o mundo.

Paula de Oliveira Feliciano (Texto e pesquisa) e  Nayane Bezerra (Pesquisa)

Fontes:

CASTRO, Josué. A Geografia da Fome (o dilema brasileiro: pão ou aço). 10ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1967.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa de orçamentos familiares 2017-2018: análise da segurança alimentar no Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento. – Rio de Janeiro: IBGE, 2020. (citação – p.24).https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101749.pdf

17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ODS-ONU) –  http://www.agenda2030.org.br/

Gente é para brilhar, não para morrer de Fome – https://genteprabrilhar.org/

Projeto Cozinha de Combate – Por nossa Conta – https://www.instagram.com/_por_nossa_conta_

Comida Invisível – https://www.comidainvisivel.com.br/

Movimento Água no Feijão – https://www.aguanofeijao.org.br

Quebrada Alimentada – https://www.instagram.com/mocotorestaurante/

Paula de Oliveira Feliciano é mestra em Culturas e Identidades Brasileiras pelo IEB/USP, graduada em Gastronomia e pós-graduada em Docência para o Ensino Superior. Atua como chefe de Projetos Verakis Brasil e como professora nos cursos de graduação e pós-graduação em Gastronomia no Centro Universitário Senac Campos do Jordão. Em 2018, passou pelo programa de estágio da Fundació Alícia/Espanha, centro de pesquisa em cozinha, sustentabilidade e impacto social. E, em 2019, pelo Observatori d’Alimentació da Universitat de Barcelona (ODELA-UB), desenvolvendo atividades na linha de pesquisa turismo gastronômico.

Nayane Bezerra é graduada em Gastronomia pelo Instituto Federal do Ceará, pós-graduanda no curso Cozinha Brasileira no Centro Universitário Senac Campos do Jordão e estagiária da Verakis.

Foto: addkm