25 de março de 2021

Desconfiança e medo dos alimentos

“A crescente produção e processamento de produtos alimentícios está sendo radicalmente desafiada. Alguns dos alimentos mais familiares, centrais e tradicionalmente ancorados nos sistemas alimentares – pão, leite, carne – também são suspeitos, acusados, evitados ou rejeitados por um número crescente de nossos contemporâneos. A desconfiança se agrega ao medo e à raiva, transforma-se em desconfiança generalizada. Esses discursos e essa rejeição, o que dizem da nossa relação com a comida, o que dizem da era das crises e das rupturas profundas em que entramos?”

Esta foi a justificativa feita por Claude Fischler para colóquio “Alimentação: da desconfiança à falta de confiança”, organizado pela FFAS (Fundo Francês para Alimentação e Saúde), no  3 de março de 2020.

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Claude Fischler apresentou as ideias e reflexões documentadas no seu artigo “ Méfiance, défiance, peurs et colères : l’alimentation dans un âge de crises” (Desconfiança, falta de confiança, medos e cólera: a alimentação na idade das crises), publicado na CAIRN.INFO – n°50, juin 2019, 26-28. https://www.cairn.info/revue-apres-demain-2019-2.htm .

Em seguida Emanuelle Lefranc (socióloga, doutoranda da EHESS – França) apresentou o estudo de caso “A falta de confiança encarnada”.

Segundo Emanuelle Lefranc, enquanto a desconfiança é apenas uma suspensão da confiança, a  falta de confiança é responsável pela perda total do vínculo entre quem come e quem nutre.

Em suas vidas cotidianas, os 50 entrevistados para a pesquisa que Emanuelle Lefranc apresentou, os desafiadores e “comedores sem” se tranquilizam consumindo alimentos crus, rastreáveis, locais, “naturais”. Eles serão capazes de reintroduzir micróbios, germes, leveduras e outros fungos que os alimentos industriais mantiveram fora de nossas cozinhas. Eles preferem se expor a esses riscos controláveis, dos quais acreditam poder lucrar, em vez da “química” da indústria.

Segundo Emmanuelle, a implementação das dietas de consequências incertas tem, portanto, uma racionalidade própria que não se reduz a uma busca pela otimização individual, mas também é concebida como uma forma de engajamento na sociedade. Menos politicamente visível do que o ativismo clássico, é testando práticas e representando outros riscos e consequências que os despejos de alimentos se tornam uma crítica civilizacional radical questionando a relação com o conhecimento e a maneira como interagimos com nosso meio ambiente.

A discussão entre Claude Fischler e Emanuelle Lefranc foi muito enriquecedora e nos faz refletir sobre as mudanças alimentares contemporâneas, a adesão aos novos modismos alimentares, e questionar as lógicas sociais relacionadas à alimentação.

O distanciamento entre  indústria e consumidor parece ser um bom ponto de reflexão sobre o higienismo alimentar e a facilidade e uma certa vontade de submissão dos consumidores. Por um lado a indústria se propôs a “tomar conta” da alimentação das pessoas, protegendo-as e oferecendo o que se acreditava ser o melhor. E por outro lado os consumidores se acostumaram facilmente com a proposta de ter tudo em mãos sem se preocupar com segurança, preparo, ingredientes, etc.

Essa relação está mudando, e rapidamente,  e além de entender o processo de mudança, é importante compreender também como a desconfiança, falta de confiança e medos se instalaram. 

Indicamos que assistam ao colóquio que está disponível pelo https://www.youtube.com/watch?v=i1l6JIZeq9M. Vale o tempo investido!

 

Saiba mais:

No II Workshop Verakis “Alimentação: avanços e controvérsias” discutiremos com especialistas franceses, dentre outros, a questão da confinaça e desconfiança dos “comedores” no âmbito social.

Aproveite a oportunidade! Inscreva-se!

Imagem:  ShotPrime Studio