22 de outubro de 2020

DA SEMENTE AO BROTO VERAKIS – Parte 2

Sempre no caminho da especialização, meus estudos continuaram ……

No segundo e terceiro anos aprendemos mais sobre a distinção entre alimentação e nutrição. Ambos estão intimamente relacionados aos hábitos alimentares individuais e coletivos. No entanto, embora os alimentos possam ser tratados coletivamente, a nutrição (assim como os efeitos dos alimentos no corpo humano) requer um tratamento individual. Assim, uma determinada dieta não pode ser prescrita coletivamente, mesmo que seja inspirada por certos “padrões” gerais. A nutrição é uma ciência biológica e a mesma dieta obviamente não pode ter os mesmos efeitos em todos os indivíduos de um grupo, cada organismo tendo sua própria especificidade.

Para se tornar um especialista em nutrição, você precisa ir muito além da nutrição celular; o homem deve ser visto como um ser vivo, socializado e dotado de um psiquismo complexo e sujeito a influências sociais, religiosas, culturais e econômicas.

Por fim tomamos consciência do nosso papel de “educadores”. Pareceu-nos essencial saber dar a conhecer e ajudar a todos na aplicação da ciência da nutrição, seja qual for a sua situação e nível social, para melhorar a alimentação individual e coletiva. Ensine às pessoas os princípios da nutrição, como se fôssemos “detentores” desse conhecimento.

A disciplina de “educação nutricional” devia permitir que os futuros profissionais identificassem as lacunas de conhecimento no campo da nutrição. (Essas lacunas podem ser causadoras de agravos à saúde e nutrição.) Esses profissionais devem estar aptos a desenvolver e conduzir projetos de aprendizagem voltados para o atendimento de uma necessidade de conhecimento. Tais projetos, o seu conteúdo e as estratégias a utilizar serão, obviamente, condicionados, entre outras coisas, pela natureza das doenças previstas, pelo tipo de público visado, pelos objectivos a atingir, pelo orçamento disponível, etc.

É de lamentar que o curso não tenha sublinhado a complexidade da relação entre a alimentação prática e os dados teóricos da ciência, que, aliás, podem ser alterados e mesmo apagados por múltiplas contingências. Alimentos é um campo muito complexo e apenas conhecer a ciência da nutrição não é necessariamente o suficiente para abranger todos os seus aspectos.

Devíamos ter sido mencionado também os meios de comunicação como vetores de informação, porque tudo se passa como se a educação nutricional e a promoção de “bons hábitos alimentares” estivessem reservadas a especialistas com conhecimentos na área.

Durante um exercício na disciplina de dietética em que tínhamos que escolher uma dieta que aparecia na imprensa e compará-la às “Regras da Alimentação”, percebemos que a dietética era amplamente divulgada pela mídia de massa. Portanto, foi levado ao conhecimento do público em geral.

Este exercício foi projetado para nos dar a oportunidade de praticar dietética, mas ainda hoje o mantenho em mente como o que me permitiu descobrir a disseminação da dietética. Deixou-me também uma memória de outra ordem, a saber: a indiferença manifestada pelos meios de comunicação e o desconhecimento da sua possível influência nos hábitos alimentares. O papel de transmitir informações sobre alimentação e nutrição para o público em geral, o impacto dessa transmissão nas representações de alimentação e nutrição e a influência da mídia na mudança dos hábitos alimentares da população. A mídia nos parecia mais um intruso ignorante e desprezível, uma vez que não tinha conhecimentos sobre alimentação e nutrição que só nós pensávamos que poderíamos falar adequadamente. Ignoramos o impacto da mídia, bem como seu poder estratégico, quando é claramente desejável que uma estreita colaboração possa existir entre eles e os círculos especializados. Só recentemente é que essa colaboração gradualmente – e muitas vezes estranhamente – conseguiu se estabelecer.

No último ano de formação, o dos estágios práticos, tratou-se de aplicar os conhecimentos teóricos previamente adquiridos.

Sensibilizada pelas inúmeras doenças relacionadas à nutrição e pelo desconhecimento das populações, principalmente das mais desfavorecidas, escolhi como primeira atividade prática o Estágio em Saúde Coletiva, oferecido pela Disciplina de Nutrição do Departamento de Pediatria de Universidade Federal de São Paulo (na época  Escola Paulista de Medicina).

Entre os projetos propostos, optei pelo que aconteceu nas favelas de São Paulo. Este projeto foi realizado em parceria com a Pastoral da Criança. Nosso papel foi coletar dados para estudar a dieta alimentar dos habitantes desse tipo de sociedade e, posteriormente, promover ações preventivas de saúde.

Concretamente, tratava-se de visitar habitações, questionar os habitantes sobre o estilo de vida e hábitos alimentares do agregado familiar, depois discutir com eles a alimentação infantil e participar em dias de sensibilização para criar e aplicar uma estratégia de educação em saúde.

Durante os dias de conscientização, as crianças foram pesadas e medidas e as mães informadas sobre a importância do estado nutricional de seus filhos.

Juliana T. Grazini dos Santos – Doutora em Informação e Comunicação, Nutricionista, Idealizadora da Verakis.

Fonte: Trechos da introdução à minha tese de doutorado: “A ciência da nutrição difundida para o público em geral na França e no Brasil – O caso da alimentação materno-infantil. Tese orientada por Baudouin JURDANT 

Foto: skeeze