17 de março de 2021

“Apartheid” das vacinas

Em distintas instâncias comenta-se que os habitantes de países mais pobres receberão a vacina contra a Covid-19, anos depois dos do Ocidente. Essa desigualdade terá consequências importantes.

Projeções da Universidade de Boston indicam que, se os 2 bilhões de doses da vacina contra a Covid-19 fossem distribuídas proporcionalmente aos países, a mortalidade global poderia ser reduzida em 61%. Por outro lado, se os 47 países mais ricos do mundo monopolizarem as doses, haverá apenas 33% menos mortes.

Enquanto a União Europeia discutia com a Astra Zeneca para garantir mais vacinas, os líderes repetiam incessantemente “ninguém está seguro enquanto não formos todos vacinados”.

A distribuição desigual em uma escala global será prejudicial para todos nós, pois deixará reservatórios do vírus espalhados pelo mundo, nos quais novas e talvez mais perigosas variantes emergirão e se espalharão: mais casos, mais caos econômico, mais mortes.

O acúmulo de vacinas se deve ao fato da oferta ser finita, as empresas têm que atingir o dimensionamento industrial da mesma antes de transferir a tecnologia, mas também é verdade que o comportamento de algumas empresas e suas políticas de preços não são os mais consistentes. Os países de renda baixa e média firmaram acordos com empresas farmacêuticas, mas até agora garantiram apenas 32% do abastecimento, com o qual devem imunizar 84% da população mundial. Nem a imunidade continental nem mundial é alcançada em três anos.

Devido à dificuldade em garantir o fornecimento de vacinas, muitos países pobres dependerão da COVAX, organização criada para facilitar o acesso inovador e equitativo a diagnósticos, tratamentos e vacinas contra a Covid-19, coordenada pela OMS.

A COVAX pretende fornecer 2 bilhões de doses em todo o mundo até 2021, incluindo 1,3 bilhões para 92 países de baixa e média renda. Isso seria suficiente para inocular 20% de cada país, dando prioridade ao pessoal de saúde e risco; om objetivo que consideramos insuficiente, principalmente quando há dúvidas de que esses números possam ser alcançados.

Os cientistas, como já foi dito, estão preocupados com o fato de o vírus estar se espalhando implacavelmente em alguns países, e representar um risco maior para todos. “Quanto mais ele circula, maior é a probabilidade de sofrer mutação” e as vacinas se tornarem menos eficazes.

O custo econômico para o mundo, de acordo com a RAND Corporation, de não distribuir vacinas equitativamente à economia mundial seria de até 1,2 trilhão de dólares por ano, embora populações ricas sejam vacinadas o custo poderia ser de 119 bilhões de dólares anuais, dada a dependência de um escala global.

“Ninguém está seguro até que todos nós estejamos.” (ONU)

Alberto Berga Monge – Madrid, 17 de março de 2021.

O Prof. Dr. Alberto Berga Monge é médico veterinário espanhol, professor e colaborador Verakis, professor colaborador da Universidade de Zaragoza, auditor da União Europeia e diretor da AMB Consulting, e escreve para o blog da Verakis.

 

Imagem: neelam279